O olhar de um Português em Macau

André Marques foi mais um dos jovens portugueses que decidiu sair do país que o viu nascer em busca de algo mais. O seu problema não foi o desemprego, mas sim a motivação pessoal de experimentar uma realidade diferente da que vivemos em Portugal. Escolheu Macau, um lugar tão distante como pessoal. Com tantas parecenças, mas ao mesmo tempo com tantas diferenças. Ao longo dos últimos anos foi Macau que o escolheu e agora este filho de Setúbal movimenta-se nesta terra como se fosse a sua própria, o que na verdade não é assim tão longe da verdade.

André não é fotógrafo, mas nas horas livres gosta de documentar na sua conta de instagram o que vê e sente.

 

1 – Qual foi a razão pela qual decidiste começar a captar, maioritariamente, imagens de edifícios? A urbanização e arquitectura de Macau é algo que te fascina?
Surgiu de forma natural. Comecei a fotografar os sítios por onde passava quando tive o meu primeiro smartphone – o que coincidiu com a minha ida para Macau –, e tornou-se numa espécie de passatempo. Além disso, arquitectura e urbanismo sempre me fascinaram, pois são um espelho fidedigno da cultura de cada região. Também gosto de observar as pessoas, mas é mais difícil captar o que pretendo e não me sinto tão confortável em fotografá-las.
Em relação à arquitectura de Macau, é verdade que me fascina e que me transmite inúmeras sensações. Mas em qualquer região encontro sempre algo que mereça ficar registado. Tudo tem algo de especial.
2 – Todas as tuas fotografias são captadas através do telemóvel. Nunca pensaste em elevar este hobbie a algo mais? Desenvolver outros temas?
Fotografo sempre com o telemóvel por ser um objecto que uso no dia-a-dia. Na verdade, nunca saio de casa com o propósito de fotografar e não gostaria de andar sempre com uma máquina fotográfica atrás. Se observo algo que me interesse captar, tiro o telemóvel do bolso e fotografo, é simples. Faço tudo isto porque me dá gozo e, para já, estou satisfeito assim. Se algum dia tiver vontade de experimentar algo diferente ou, inclusive, de desenvolver outros temas, certamente que o farei.
3 – Através das tuas fotografias vemos muitos traços ainda enraizados da cultura portuguesa, isto através dos edifícios. Além destas estruturas existem mais marcas da nossa cultura em Macau?
Macau tem muitas influências portuguesas para além das de carácter arquitectónico. Para começar, o português é uma das línguas oficiais de Macau (a par do chinês), o que por si só é já uma grande marca, revelando-se em diversos aspectos – os nomes das ruas estão em português, a nossa língua pode ser utilizada nos diversos organismos públicos e existe até um canal de televisão e uma estação de rádio em língua portuguesa. Mesmo no sector privado, é possível encontrar muitos estabelecimentos com o nome em português, ainda que nem sempre a nossa língua seja bem empregue.

Por outro lado, o sistema jurídico de Macau é de matriz portuguesa, o que significa que os princípios jurídicos e, em geral, as demais normas, são idênticos aos de Portugal.

Destaco também a existência da comunidade macaense que, mais do que pessoas nascidas em Macau, compreende aqueles que, tendo antepassados portugueses e chineses – entre outros, provenientes de regiões por onde os portugueses passaram –, possuem hoje uma forte identidade cultural e étnica que, claramente, tem influência portuguesa.

Por fim, cabe referir os muitos portugueses que ainda cá habitam e que exercem as mais variadas profissões, deixando a sua marca na região. Isto revela-se, por exemplo, na gastronomia, existindo muitos restaurantes portugueses em Macau.

4 – Algumas das tuas fotografias foram seleccionadas para um projecto do Ministério da Cultura do Brasil que consistiu em recolher 100 fotos do instagram de países/regiões de língua oficial portuguesa. Como foi esta experiência?
Foi um projecto interessante, uma vez que permitiu chamar a atenção das pessoas através de um meio de fácil acesso para as diversas culturas dos países e regiões de expressão portuguesa. Penso que é importante nunca nos desligarmos dos mesmos, afinal de contas são o nosso maior património e fazem parte da nossa identidade. No âmbito deste projecto, chamado “Nossa Língua”, foi lançado um livro que reúne as 100 fotografias seleccionadas, foi organizada uma exposição itinerante que já começou no Brasil e foi ainda realizado um documentário que teve estreia mundial no Festival de Cannes.

5 – Costumas pesquisar sobre fotografia e seguir alguns fotógrafos? Se sim, quais?
Não costumo pesquisar especificamente sobre fotografia e confesso que não tenho fotógrafos que siga com especial atenção. Sou um mero ser humano que, de vez em quando, capta algumas imagens com o telemóvel, sem grandes pretensões fotográficas. De qualquer forma, é frequente ir a exposições artísticas, não apenas de fotografia, e é óbvio que tudo isso me influencia.

6 – Macau sempre foi um ponto de grande fascínio por parte dos portugueses. De forma breve, o que é que Macau tem que não existe em mais lado nenhum?
Na minha perspectiva, o que torna Macau única é a clara miscigenação entre as culturas chinesa e portuguesa, que aqui muito bem convivem. É uma terra de enormes contrastes. Sinto que estou longe e perto de casa ao mesmo tempo.

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Entrevista por João Miguel Fernandes

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