A melhor série de 2016 chama-se The Young Pope

O gigantesco boom de séries em 2016 fez-se acompanhar de uma maior aposta na produção das mesmas, deste aspectos cénicos a efeitos especiais ou cor/luz/imagem. Esse investimento na produção fez com que séries que à partida poderiam não obter grande destaque conseguissem brilhar.

A grande questão que se retira deste “incrível” ano de 2016 é: Que série é que realmente criou algo novo a nível de argumento e pode influenciar criações futuras? The Young Pope.
Se à partida muitos pudessem responder que seria Stranger Things ou Westworld, a verdade é que estas duas séries trouxeram poucas coisas novas para o pequeno ecrã. Embora se esteja actualmente a praticar a criação de séries como obras cinematográficas sérias, tal e qual como um filme que existe em vários capítulos, a verdade é que esse aumento de qualidade só se verifica maioritariamente na produção e no elenco. Os actores de cinema estão agora em todas as séries. Já não existe uma grande diferença entre as duas correntes visuais. A questão com Stranger Things e Westworld é que são séries que vão buscar demasiado às suas influências cinematográficas, sem serem realmente capazes de criar conteúdo particularmente novo. São claramente duas séries bastante sólidas, mas no fundo são uma mescla de detalhes e pormenores de outras séries, filmes e livros. É difícil reter algum novo conteúdo a partir disto.
Pelo contrário, The Young Pope avança em direcção à criação, à originalidade, e consegue criar uma nova identidade a partir de tudo o que possa ter sido sua influência. Por detrás desta criação está o génio de Paolo Sorrentino, mais um cineasta a apaixonar-se pelos encantos das séries.

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O ponto forte de The Young Pope é a forma como absorve todos os tiques e maneirismos sociais actuais e os combina com uma identidade tão própria e vincada como a da Igreja Católica. Isto permite-nos relacionar com o tema mesmo que não tenhamos qualquer conhecimento sobre o assunto.

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A acutilância dos personagens, o argumento completamente à frente do seu tempo, e a realização detalhada de quem sabe como olhamos, o que vemos e quando, dá-nos a sensação de que Sorrentino está dentro das nossas cabeças. Todos os personagens têm características cartoonescas, bem vincadas, mas essa caracterização é preenchida com detalhes sociais minuciosos com os quais nos iremos identificar ou pelo menos reconhecer. É este o grande “truque” de The Young Pope, esta capacidade de criar um argumento novo, irreverente e fazer com que todas as pessoas se associem a personagens, momentos, frases, não porque nos identifiquemos pessoalmente com eles, mas sim porque os reconhecemos, seja em nós próprios ou em outros.

Depois há história, actores e uma utilização da luz como poucos sabem fazer, mas isso fica para o leitor descobrir por si próprio.


Texto por João Miguel Fernandes

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Matéria Negra